domingo, 14 de outubro de 2012

As aldeias


          

-" Antigamente as mulheres ainda vendiam uns ovos, ou algum centeio ou aveia, sem os homens saber, para ter algum dinheiro. Agora, as mulheres não têm dinheiro para nada, não são senhoras de um tostão." – Assim desabafava uma pessoa amiga, um pouco mais velha do que eu. Na verdade, já somos todos velhos, num tempo com poucos "novos". Não é a idade que o faz, mas antes o que já carregamos nas algibeiras que arrastamos. Ainda se fala assim. Ainda se ouvem estes desabafos. Ainda assim acontece. Não é uma passagem de um qualquer filme de época. Ainda continua assim por vários cantos do meu lugar, do lugar onde moro, mas talvez o habite apenas esporadicamente, como acontece quando bato à porta de alguém para meter conversa, quase sempre por coisa de nada. Apenas porque necessito de me ligar com uma outra qualquer realidade que me solte do mundo dos sonhos que guardo, qual pastor e seu rebanho. Tantas vezes o levo a pastar nas pastagens idílicas que invento para o alimentar, a esse mundo.
É, sem dúvida, um mundo cheio de mundos que coabitam o mesmo espaço, o mesmo tempo físico, não sabendo se vivem lado a lado, mas que vivem, vivem. Os tempos serão sempre de todos e de todas as formas de estar e sentir, daqueles que mantém os seus equilíbrios, tantas vezes de uma forma que pode parecer “estranha”. Estranha pode não ser o termo correcto, mas para mim assim o parece, pelo menos às vezes. Sim, não é tão estranho como pode parecer. Se caminhar um pouco pela minha vivência, toda esta forma de estar e sentir sempre existiu. Apenas o menino que um dia começou a ir de autocarro para uma escola mais longe, tenha sido tocado, integrado noutros mundos que os professores e os livros o fizeram descobrir e nele entrar. Embora presentes em mim, todas as vivências vividas e que me tocaram, umas vão-se sobrepondo às outras, como camadas de sedimentos que se vão depositando, formando a morfologia interna do meu ser. Visível, tocável, por onde nossos passos caminham, apenas a crusta, as últimas vivências. Mas todas as camadas estarão sempre presentes, se a memória nunca nos faltar. Seremos rochas compostas por todas as diferentes camadas de sedimentos que depositamos dentro do nosso ser, desde o núcleo até à crusta. Mas rochas vivas, sempre em crescimento, sempre agrupando outras camadas de sedimentos, outras vivências que todos os dias enquanto vivemos, no mundo dos seres livres e sonhadores, vamos acrescentando. Triste e monótono seria, se apenas existisse a mesma camada de sedimento, sempre igual, desde o núcleo até à crusta.
Explicar, fazer sentir àqueles que nunca tiveram esta experiência, nunca realizaram tal experiência de vida, pode ser difícil. Mas o ser humano desde o sempre que dele se fala, agiu e pensou basicamente segundo os mesmos princípios. Sempre precisou de se alimentar, sempre buscou o equilíbrio com o grupo onde se integrava, sempre amou e foi amado, odiou e foi odiado, sempre teve os mesmos sentimentos e necessidades dentro dele. As formas de os manifestar sofreram alterações, mas os princípios, a essência das necessidades, do sentir e desejar manifestar-se, parecem manter-se imutáveis. Pelo menos assim penso, assim olho todos os outros tempos que aconteceram e os que se espera continuem a acontecer. Não estou a dizer que é o que devia ser. Mas não consigo criar, imaginar outra forma, outra identidade como ser humano que também sou. Posso não me sentir muitas vezes confortável “com a roupa que visto”, mas não sei dizer qual a outra que desejaria ou se a desejaria. Somos seres curiosos, por vezes até dá gosto ficar apenas a olhar, a tentar desvendar os seus segredos. Como foi o caso desta senhora amiga com quem hoje falei. O seu desabafo não foi o de alguém que pedisse esmola, muito pelo contrário, foi altivo, como se uma necessidade material apenas enobrecesse toda a sua personalidade. Porque o ser pobre ou rico não é condicionante para o ser que somos, interiormente, a forma digna e esclarecida como nos definimos, as situações que da nossa vida tomamos no regaço, como filhos nossos, nossos filhos. São nossas essas passagens, e como nossas as acolhemos, mesmo que em pranto. Não é onde chegamos que nos define, mas sim o como o fazemos e o “estado” em que chegamos, como continuamos a ser no “chegar”.
Neste ambiente rural a que entretanto cinjo meus passos, depois de outra viagem, pequena, num ambiente semirrural, semiurbano, encontro e reencontro-me com formas de viver, de granjear o sustento do dia-a-dia que são específicas, ligadas à terra, às hortas, aos animais que criam, a uma pequena agricultura que ainda se vai praticando. Embora rudimentar, nada lucrativa, muitas ainda teimam contra as maiorias lutar, viver na sua casinha, que consideram sua, na terra que trabalham e que sua é. Sê-lo-á enquanto as forças não se perderem pelos anos que a vida vai fazendo. Não gosto de pensar o que sinto. Não quero sentir o que penso. Quero acreditar que haverá sempre lugar para todas as formas de viver, com a vida lidar, o sustento para o corpo e para a alma granjear. Um dos requisitos que sinto ser necessidade de muitos que nas aldeias habitam, é o de manter a sua liberdade, a sua autonomia, a sua independência dos grandes núcleos urbanos, do poder. Acho que gostariam de ser invisíveis aos senhores das leis, dos cobradores de impostos. Senhores se sentem das nascentes de água, dos pequenos ribeiros e rios, dos campos onde  cultivam o seu alimento, dos montes que lhes alimentam as lareiras,  que cozinham e lhes aquecem as casas e as roupas que trazem.
Mas sei que tudo está a mudar. Sinto que em breve estes “teimosos” findarão e não haverá descendência que siga os seus passos, os seus olhares, o seu olhar a vida. Partem em busca de algo que,se calhar, ao certo não sabem bem. Não querem precisar de vender os ovos, às dúzias, para ter alguns tostões. Precisam de muitos tostões para se saciar, no corpo e na alma. Que no seu ser não se perca nenhuma camada das vivências que aqui passaram, que deles continue a fazer parte. Que a saudade não os largue, e, quando puder, os arraste de novo às origens, ainda vivos e com vida, para se deixarem por estes campos e montes aprisionar, nas suas nascentes a sede saciar, das conversas com os vizinhos a mente e a alma alimentar. Que a saudade seja enorme, incansável, o seu fado cumprir de um dia os aqui trazer, para ficarem, para sempre ficarem. Ai cidades belas, que as minhas companhias levais, pela calada, no silêncio que a vida toma, sem me dar conta, sem poder a casa do “ladrão” salvar!...
Esta terra, com nome, é igual a tantas outras que existem. Este povo, que um dia andou à charrua, é como tantos outros que a sua terra lavram. Eu sou dos que aqui, por enquanto, ainda estão. Olhar, caminhar pelos carreiros, que são do passado mas que ainda existem, faz parte de um viver comum, apenas tentando não esquecer as vozes que cantavam o povo que foi adormecendo. Num olhar o mundo e os seus desígnios, as suas vontades, as suas necessidades, estou. De tantas profecias que os novos profetas invocam, sinto-me abismado, não pretendo fazer o que quer que seja para neles acreditar. Mas de todo é impossível passar indiferente, não se deixar impregnar de tantas hipóteses e suposições que se fazem sobre o futuro da nossa espécie, e em particular sobre a nossa forma de viver. Somos sempre mais a cada dia que passa, tristeza a minha que não seja esse crescimento igual em todas as cidades, vilas e aldeias. Umas crescem enquanto outras vão-se sumindo nas encostas de pequenos riachos, nas poucas planícies, nos pequenos planaltos. Muitos concelhos tentam atrair a si alguma indústria para fixarem os poucos que restam. Não é fácil competir de igual para igual com a beira litoral, que de si mais atractiva o tem sido.
Lembro os tios do Porto, os que nasceram em Carvalhal Redondo. Era miúdo mas nunca esqueci a forma calorosa com que nos recebiam nas poucas viagens que ao Porto fazíamos, quando ao Porto se ia “ em cima de um burro morto”. Lembro a cidade escura, dos seus granitos, barulhenta, do seu movimento. O cheiro a Bananas, quando entrávamos no apartamento da tia Rosa e do tio Abílio, que ainda fica no Largo do Viriato (não sei se o tal que queria escorraçar os Romanos e acabou nas suas mãos), por detrás do Hospital de Santo António. De volta aos carreiros, interrogo-me sobre o destino meu e dos que por aqui labutam. Relegando para um plano inferior o valor que a agricultura e os seus campos já tiveram, a pouca indústria é escassa para dar sustento a todas as famílias. Diariamente somos conduzidos para pequenas viagens à procura, regressando, no final do dia, como os pardais que ao seu ninho vêm pernoitar. A criação dos Polos escolares é mais uma dura realidade, retirando às aldeias a magia, a vida que uma criança representa. Estou preocupado. As gerações que estamos a criar poucos laços criam com a sua aldeia. Que lembranças irão ter se não brincam nos seus largos, não se aventuram pelos campos à procura de um cacho de uvas, de uma maçã, de uma laranja, de uma ameixa, de uns figos, de uma pêra  de um ouriço com castanhas e tantas outras que agora não lembro. Os laços que outrora estabelecemos e que nos fazem por aqui querer estar, já não se estabelecem entre os nossos filhos e a magia que inventávamos para que o nosso lugar fosse o centro do universo. Choro da mágoa que sinto por não conhecer tantos que aqui nasceram e cedo se despediram. Por vezes já nem recordo a sua face, o som da sua voz por nunca com eles ter conversado. Estranhas todas as novas vivências que nos afastam uns dos outros. O mundo dos teclados e ecrãs tomou conta do lugar que era das conversas, das brincadeiras, todos olhando-se olhos nos olhos, sentido a sua presença enquanto um todo. Não passamos, na maior parte das vezes, de uma realidade virtual, sem alma, sem cheiro, sem tacto. Há coisas que os olhos não conseguem ver, sentir. A nossa presença não se assemelha em nada a uma imagem num monitor, a uma mensagem teclada. Ai como eu sinto que sou mais, que todos devem ser mais do que isso. Que essa realidade exista, mas que não tome o lugar das outras que também precisam de existir. Ai de nós, que futuro nos espera se não lutamos para fazer acontecer de novo a convivência, a criação de raízes com a terra que nossos antepassados alimentou. Ai de nós se não erguemos bem alto a enxada para na terra cavar alicerces fundos para as “árvores do futuro” pegarem, criarem raízes que as façam crescer, aqui viver. Ai de nós se não conseguimos forças para acompanhar todo este movimento de mudanças constantes. Mas nada se pode prometer. O futuro é a cada instante, e a cada instante se parte, se vai à procura. Por vezes, fala-se que a agricultura será no futuro a actividade mais importante devido à escassez de alimento que poderá acontecer. Mas ninguém pode viver o futuro se não tiver presente. Até acontecer o futuro, vive-se o presente. Todos os dias vivemos, não dá para hibernar, apenas acordar quando o “clima” for propício. O futuro e o presente confundem-se tal a “dependência” que tem um do outro. Se uma árvore está a secar, não lhe posso apenas dizer que, quando o inverno chegar, haverá água em abundância  Até lá, o que é que ela bebe? Secará e toda a água de nada lhe valerá, se as raízes sem vida já estiverem. Se queremos projectar um futuro, começamos já hoje e nunca podemos parar, descuidarmo-nos, fazer uma pausa e depois voltarmos à tarefa. Muitas coisas não podem ser tratadas assim. Se queremos que as nossas aldeias continuem vivas, temos que repensar muitas coisas: isto se queremos que elas continuem a existir habitadas e com uma dinâmica sempre crescente.
        Sempre que faço uma pequena reflexão sobre um hipotético futuro para a minha aldeia, e as aldeias em geral, sinto que dificilmente atrairão as novas gerações. Poderão acontecer muitos casos de um regresso mais tarde por nostalgia, por uma saudade que foi crescendo, a procura de uma identidade própria que foi perdida nos aglomerados urbanos. Ainda quero acreditar que possa ser uma primeira escolha, mas não me posso iludir que para se concretizar muitos sonhos é preciso mais que uma bonita paisagem, um ar puro, o cantar das águas num pequeno riacho. Ninguém tem culpa, ninguém o faz por mal. Poderão um dia estes campos abandonadas serem de novo procurados. Até lá que permaneçam adormecidos ou alberguem uma flora que não os descaracterize, lhes roube o alimento que escondem. Que não sirvam para plantações de eucaliptos que só servirão para os tornar mais um bocado de “deserto”, inférteis. Talvez até seja melhor que ,por agora, eles descansem em vez de se praticar uma agricultura intensiva com o uso descontrolado de adubos, pesticidas e herbicidas. Não sei o que será melhor. O ideal para mim seria o conseguir-se fazer uma agricultura de forma sustentada e rentável capaz de dar “alimento” às novas gerações que essa actividade escolhessem.      

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pensando





Agora que aqui estou, pensando,
tentando achar algo que procuro,
só encontro o que não procuro,
só procuro o que não encontro.

Erguem-se os estandartes, bem alto.
Firmes estão junto ao tronco exausto,
que se mantêm firme até desfalecer,
por entre as espadas, até morrer.

De um singelo propósito não ouso revelar
a vida que na alma habita, de forma discreta
aos olhares indiscretos que a ameaçam.
Por medo, por insegura se sentir, por lá fica.

São eternas ternas recordações que teimam
contra a vontade do destino viver, permanecer.
Estranho todo este sentir e não descobrir
se alimento ou veneno o é para a alma.

Sem propósito algum aqui me encontro
rabiscando pedaços de papel, pedaços.
Estranha a melodia que não se afasta,
nefasta por tão incontornável envolvência.

Todo o acontecimento me parece trivial,
pouco ousado, nada criativo, o ir mais além.
Passadas diferentes preciso para caminhar
outros mundos, outros tempos, ousar sonhar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pouco, não é nada.





O caminho para os montes de Rio Mau não era muito ruim. Algumas descidas, mas nada a que os bois já não estivessem habituados. O meu pai tinha-me mandado ao curral buscar o branco que ele trazia o vermelho. Os bois ficavam no curral mais afastado da casa, o curral de fora como lhe chamávamos, cada um no seu canto, presos para não andarem às turras. Cada qual tinha a sua manjedoura onde se colocava o pasto quando era hora da refeição, isto depois de beberem a lavagem, que era farinha com água e por vezes algumas cascas de resto de alimentos. Estavam bem tratados. A minha mãe sempre gostou de tratar bem os animais, cuidar, ser sua amiga. Era normal Ela falar a meio do lugar e os animais já darem conta dela, não parando de mugir enquanto ela não chegasse. Por vezes acontecia que quando andávamos com o gado a pastar, se ouvissem a voz dela era um Deus nos acuda, fugiam para ir ter com ela.
                Já com os dois bois presos à soga, que era de couro cru, era necessário pôr a canga. As juntas de bois, quando ao início eram ensinadas a andar ao carro, desde esse momento ficavam com um lugar definido para o resto da vida enquanto fossem par um do outro. As juntas de bois eram essenciais para transportar tudo que havia para transportar: o mato e a lenha dos montes, todo o pasto que os campos davam, levar o estrume dos currais para fertilizar os campos na altura de lavrar para a sementeira, lavrar, gradar, sachar o milho, trazer todas as colheitas. Quando era pouca coisa não valia a pena todo o trabalho de pegar nos bois, trazia-se à cabeça. Já não lembro, mas era costume alguns lavradores venderem lenha para as padarias e transportavam-na com os seus carros de bois, percorrendo grandes distâncias. O meu tio António costuma contar uma passagem engraçada sobre a época em que levavam carvão para S. J. da Madeira. Naqueles tempos, a garotada andava sempre descalça. Mas em S. J. da Madeira havia uma lei que proibia andar descalço. Levavam as socas de madeira no carro e lá tinham que as calçar, não vá serem apanhados por algum polícia.
                O carro de bois já estava pronto. Como era para trazer lenha não levava as caniças, apenas os fugueiros altos para se carregar uma boa carga. Depois de apertada a canga aos bois, era tempo de pegar no carro. Com cuidado para não se aleijarem no cabeçalho, recuavam até se poder levantar o cabeçalho e prendê-lo à canga com a chavelha. Era preciso ter sempre algum cuidado com os bois. Embora mansos, por vezes agitavam a cabeça para sacudir algumas moscas ou moscardos e podiam-nos atingir com os seus enormes cornos. Eu gostava de olhar nos seus olhos e fazer-lhes mimos no focinho e no pescoço, onde eles gostavam mais. Quando era de verão, era hábito levar um ramalho verde para lhe sacudir as moscas que não os largavam para se alimentarem do seu sangue. Por vezes, até dava dó ver o sofrimento deles. Malditas moscas que não paravam de nascer, mesmo quando se matavam tantas com a palma da mão que ficavam toda ensanguentada. Juntavam-se nas partes mais moles do corpo dos animais, às pilhas. Quando eram os moscardos, até os animais saltavam no ar só de ouvir o seu zumbir. O meu pai já me deixava levar os bois pela soga. Tomando cuidado e fazendo-se ouvir, lá se seguia rumo ao monte carregar a lenha, sempre com a vara dos bois ao ombro para impor respeito.
                - Anda daí branco, chega-te ao carro. Anda ei, vamos embora, ei. – Era numa linguagem própria que comunicávamos com os animais. Já habituados, entendiam perfeitamente o que se lhe queria dizer. Tinha-se colocado no carro a corda para amarrar a carga depois de pronta. Na mão levava-se uma foice e um serrote para cortar o que fosse necessário. A caminhada até ao monte onde se ia carregar a lenha durava mais ou menos vinte minutos a trinta minutos. Para lá era mais depressa do que para cá. Numa passada normal lá seguimos caminho. Estamos no verão, por esse facto vai-se cedinho, antes do sol nascer, para fugir ao calor. Todos os anos se repete. Quando alguém deita pinhal abaixo para vender, o meu pai costuma pedir a lenha dos pinheiros que fica no monte, não tem valor para os madeireiros. Só as grandes casas do lugar é que são possuidoras de vastas áreas de monte que ficam em redor das aldeias e dos campos de cultivo, numa mancha de floresta que se prolonga até se perder de vista. A essas parcelas de terreno, que podem ter algumas centenas de metros quadrados até muitos hectares, chamamos-lhe tapadas. Todas as tapadas tem o seu nome próprio. Basta dizer a tapada a ou b que toda a gente a conhece palmo a palmo pois o mato, ou tojo como chamamos à flora rasteira que neles cresce, é cortado à enxada, manualmente. Desse modo os habitantes do lugar conhecem palmo a palmo todos os montes em redor. Uns mais do que outros, mas quase todos conhecem. A casa dos meus pais era uma casa pobre, com apenas umas quatro tapadas muito pequenas que pertenciam aos meus avós paternos com os quais vivíamos  A que fica mais perto é o monte das Bouças. Depois temos nas Juntas, na Colmieira e no Campo-do-rio. Umas já pertencendo “à casa”, outras que se foram comprando. Uma tapada, se estiver bem situada, com pouco declive, caminhos bons, boa terra, é uma grande valia. Dela se colhe, além das grandes árvores,  a flora mais pequena a que chamamos mato para fazer “ a cama ao gado”. Esta vegetação vai servir para todos os dias se colocar no curral dos animais para não estarem a deitar-se em cima dos seus resíduos orgânicos (mais conhecida no lugar por bosta) e ao mesmo tempo, quando chegada a altura das sementeiras, será um fertilizante natural por excelência. O grande inimigo da floresta é o fogo. Quase todos os anos existem pequenos fogos dos quais nunca se sabe ao certo a origem. Por descuido ou maldade, o certo é que eles acontecem e deixam todos os habitantes em pânico. Além da destruição da enorme riqueza que uma floresta representa, existe sempre o perigo de chegar às habitações do lugar. São dias de muita angústia e sofrer. A minha terra, como eu costumo dizer, é uma zona de montanha, com os montes não muito altos nem com muito declive, fazendo lembrar o mar com as suas ondas umas a seguir às outras. Vê-se ao longe uns mais altos que outros até se perderem na linha do horizonte. No fundo desses montes existem por vezes pequenos vales, quase sempre um ribeiro de águas que descem das suas encostas ou nascem junto ao leito deles. Na parte mais funda da freguesia já correm alguns rios de onde se destaca o maior que é o rio Arda.  
                Chegados ao monte onde a lenha se encontra espalhada nos locais onde as árvores tombaram, tira-se a chavelha que segura o carro à canga, com cuidado para não partir o cabeçalho do carro que se encontra já travado em ambas as rodas por duas pedras que ali se ajeitaram. Tira-se a canga dos bois e prendem-se cada um a uma árvore que seja segura. Tudo arrumado é hora de começar a carregar a lenha. O meu pai vai orientado as primeiras camadas até que eu tenho que subir para cima do carro para acamar quando já não dá para se fazer do chão. O meu pai vai-me chegando as rameiras, uma atrás da outra, até se ter carga suficiente para os bois poderem puxar o carro. A carga deve estar equilibrada a meio do carro onde se situa o eixo e as suas rodas. Quando o carro está carregado com peso a mais da parte de trás diz-se que está “ao pino”. Se estiver muito à frente é muito peso em cima do cachaço dos bois. Deve estar equilibrado. Voltando a por os bois ao carro, é hora de regressar a casa.  
                Foi num verão desses que íamos buscar lenha, que eu resolvi pedir ao meu pai se podia escolher a lenha mais grossa para serrar e fazer achas para vender. Foi algo que ainda hoje lembro, a vontade de começar a ganhar alguns tostões só para mim. Nesse tempo as achas que consegui fazer vendi-as por cento e cinquenta escudos ao meu primo que fornecia a alguns clientes. Se comparar com os tempos que correm estaria a falar de aproximadamente setenta e cinco cêntimos. É espantoso como o mundo entretanto mudou, o valor de tudo tem crescido de uma forma quase abismal. É certo que os ordenados são outros, mas dá que pensar. Hoje todos estamos habituados a muito. É dinheiro para isto e para aquilo, nunca se está satisfeito. Eu sempre acreditei que pouco é muito diferente de nada. É preciso ensinar as novas gerações para o valor do empreendorismo, não estar sempre à espera que nos dêem as coisas. Todos dizem que nada vale a pena, que o melhor é empregar-se numa fábrica ou noutro sítio qualquer e comprar as coisas que fica mais barato. E quando não houver empregos, quando tiver que ser cada um a criar o seu sustento? O que pretendo dizer é que devemos procurar e ser capazes de descobrir formas alternativas no caso de necessidade extrema. Defendo que a agricultura devia ser olhada com outros olhos. Todos defendem a produção em grande escala, toda mecanizada. Tudo bem, mas será que, se fossem melhoradas certas situações nesta agricultura mais pequena, de campos diferentes, não seria possível aumentar a sua rentabilidade? Porque razão certas infraestruturas como os caminhos, a forma de armazenagem e distribuição das águas para a rega nunca foram melhoradas desde o tempo em que apenas havia os carros de bois? Os nossos campos são mais produtivos que qualquer outro campo que exista pelo mundo inteiro. Aqui pode-se cultivar muita coisa, é necessário adequar as culturas às necessidades do mercado, procurar produzir o que é mais rentável. Se os caminhos fossem bons, era muito fácil qualquer um cultivar um campo para complemento de rendimento para o agregado familiar. Os legumes, as hortaliças, as batatas, o feijão e tantos outros alimentos são fáceis de cultivar. Se fosse possível ter acesso com uma pequena viatura ligeira a qualquer pedaço de terra, estou convicto que muitas famílias voltariam a ter a sua horta. Além do mais, com o que se cultiva pode-se criar animais como coelhos, galinhas ou outras pequenas aves. Posso estar apenas a ser nostálgico, a não ser realista, a querer voltar a um outro tempo. Pode ser, mas a actual crise e os sinais da escasseza de alimentos que poderá acontecer no futuro poderão vir a dar-me razão e a muitos que como eu pensam. Não devíamos abandonar os campos por completo. Devíamos pensar em formas de reduzir os custos no seu cultivo. Se não der para competir em certos mercados, temos que procurar produzir algo em que se seja competitivo. Porque é que nunca se melhorou a vinha? Podíamos produzir vinho com mais qualidade, se houvesse quem ensinasse novas técnicas, aconselhasse as castas melhores para cada tipo de solo e clima. Ficamos sempre parados no pensar, limitamo-nos a repetir os mesmos actos dos nossos antepassados na forma de agir. O poder político local e nacional também sempre achou que não valia a pena investir. O que aconteceu foi muito simples: o abandono em massa de quem trabalhava no campo. Para resumir e concluir, a minha visão não se prende com o passado. Apenas olho o momento actual e sinto que muitas famílias viveriam mais folgadas se, em vez de chegarem dos empregos e meterem-se em casa ou nos cafés, tivessem uma horta que fosse fácil de cultivar, com bons acessos e um bom sistema de rega. Para tal é necessário um estudo prévio, freguesia a freguesia, juntando habitantes e técnicos superiores. Sei que existem muitos entraves, como o mosaico em que se distribuem os campos actualmente  Devido a partilhas e vendas, os campos distribuem-se de forma desordenada, muitos em minúsculas parcelas rodeadas por muros em pedra, o que não facilita em nada alguma mecanização para facilitar o seu cultivo. Não sei mesmo o que pensar. Poderá apenas ser uma ilusão minha. Mas que me dá tristeza ver este abandono e o país a precisar que se produza. Acho que por este andar, um dia vou ter saudade dos cachos de uvas que se comiam por todos os campos onde se passava, dos carrapiços que ficam nas ramadas e, já fora de época das colheitas, inverno dentro, a rapaziada trepava em sua busca. Como sabiam bem.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pequena passagem





Conta-se que, há muito tempo, existia um fotógrafo que andava de terra em terra a fazer o seu trabalho para ganhar o pão de cada dia. Tempos miseráveis que exigiam muito engenho e arte para se poder granjear uns mingados tostões. Nessa luta diária, lá ia o fotógrafo com o seu laboratório e máquina fotográfica tentando conseguir o maior número de aderentes a querer imortalizar-se pela arte da fotografia. Chegado a uma determinada terra, montou a sua tenda no largo da Igreja. Era domingo, o povo da terra estava participando na missa Dominical. Resolveu aguardar que a Missa terminasse para “apanhar” o maior número de pessoas. Quando as pessoas começaram a sair da Missa, que tinha terminado, lá estava ele se anunciando às portas da velha Igreja, pedindo a todos que se juntassem pois gostaria muito de os fotografar.
                - Não demora nada e custa muito pouco. – Dizia ele em voz alta que se ouvia em todo o adro. Alguns mais reticentes que outros lá foram acedendo ao pedido e em breve estavam todos juntos, prontos para a tão problemática fotografia dos habitantes da terra. Já com a máquina pronta, o forasteiro dirige-se assim às pessoas:
                - Obrigado pela Vossa disponibilidade. Eu estou aqui para vos tirar... – Mal acabava de dizer a última palavra, alguém ergue bem alto a sua voz e diz o seguinte, enquanto já se ia afastando do grupo em direcção a casa:  
- A mim é que não me tiram nada. Homessa, pensa que eu sou algum tolo ou o quê? – E deste jeito todos se começaram a inquietar enquanto o pobre fotógrafo tentava explicar que apenas iria “tirar” o retrato da comunidade. Enfim, esta falha de comunicação levou a maior parte a dispersar-se e ir para casa, sem que  se lhe tenha “tirado” a fotografia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A escola, que já foi minha





Na semana passada, passei junto a um pequeno edifício que é único no lugar. Fica num sítio muito bonito, no lado nascente do meu lugar. Tem uma arquitectura bastante simples, simétrica, como uma borboleta. Dividindo ao meio, cada parte é o oposto da outra. É mesmo assim, tendo como eixo da simetria o meio da construção, onde estão duas placas de mármore: a maior em cima e a mais pequena em baixo. Entre elas ergue-se um pequeno mastro em ferro pintado que nasce de uma pedra em granito muito bonita e se eleva em direcção ao céu de forma oblíqua à parede do edifício. Descrevendo o que os olhos vêem de frente, as janelas são imensas por onde entra toda a luz do Deus sol. Em cada extremidade existe um pequeno átrio que dá para a sala onde cabe toda a luz que entra pelas janelas, que são imensas, e uma porta no canto ao fundo que dá para as casas de banho para as meninas, os meninos e também para a Senhora Professora ou o Senhor Professor.
Ia acompanhado com a minha mãe. Estamos no outono, as folhas que se deixaram cair dos ramos das árvores, adormecidas, juntaram-se todas junto ao portão da entrada. Quietas, todas juntinhas, estão barrando a passagem, que já há algum tempo deixou de o ser.
- Já não se ouvem as crianças! – Disse a minha mãe de um jeito triste, como que suspirando. Parei, olhei mais do que os olhos podiam ver. Também suspirei, como quando olhamos alguém que junto a nós jaz. Fez-se uns instantes de silêncio, cada um olhou e deixou o olhar por aqueles portões entrar, no recreio um pouco brincar para depois na sala entrar e juntar-se a toda a luz do lugar que ali se sentava nas carteiras, de frente para a ardósia que era preta e de seguida iria ser pintada do branco mais puro que a natureza nos dava. Decididamente o silêncio era assustador. Só um pouco do som das folhas secas, adormecidas, que o vento ali deixou, todas juntinhas, depois de com elas brincar. Neste momento era dos poucos que pelo recreio podia correr, jogar à macaca, ao pião, à barra do lenço, do penico, jogar à bola. Para mim, o momento foi desolador. A minha infância parecia ali adormecer, junto a ela para que não se sentisse triste, só. Tinham-lhe roubado todos os filhotes, era uma mãe enlutada que chorava a perda dos filhos, aqueles que também eram das mães da aldeia. Decerto não compreendia tal, sempre se dera de corpo e alma aos ensinamentos, às brincadeiras do recreio, a tudo que é natural acontecer entre mãe e filhos.
O sol, todos os dias, por ali passava o dia, sempre na esperança de reencontrar as luzinhas que nasciam em quase todas as casas da aldeia, tantas vezes mais do que uma. Por certo, passavam os dias a conversar na linguagem que só eles sabiam, mas que eu imagino também compreender. A minha mãe adorava aquela casa tão cheia de significado, mesmo para quem nunca se tinha sentado nas suas carteiras, ido ao quadro ou brincado no recreio. Mas não estou a ser correcto. Olhando-a, pensando mais profundo, também ela como todas as mães da aldeia se tinham sentado nas carteiras juntamente com as luzinhas que tinham dado à luz, que tinham cuidado e iam cuidando. Pensando melhor, toda a aldeia se sentava todos os dias da semana naquelas carteiras que davam para o quadro, que ensinavam como viajar no mundo maravilhoso da magia que os livros lidos têm.  O Senhor ou a Senhora professora sempre os acolhiam para lhes ensinar um mundo novo. Novo na magia das palavras que até então eram só faladas. Das contas que eram de somar e tantas vezes se sumiam para dar lugar à brincadeira. Das lousas pequeninas que cabiam na sacola de pano e que eram filhas da mãe ardósia, também preta, aquela que lhes ficava em frente quando estavam sentados nas carteiras. Ai a dor que não é só minha, mas que também é. Aquela que já foi minha e de tantos meninos e meninas que pintavam a aldeia de um colorido diferente com as suas vozes que ecoavam por todo o lado. Ai de mim que aqui estou perante Ti, que já foste minha, e que em nada sinto poder valer-te. Também eu com a graça de Deus te dei as minhas luzinhas para que as acolhesses dentro de ti, em ti aprendessem também o mundo mágico que só tu sabes ensinar o caminho para lá chegar, quem sabe por lá ficar sempre que apetecer. Perdoa-me pelo que não fiz e talvez devesse fazer. Perdoa aos Homens que te enlutaram, os teus e os nossos filhos roubaram. Perdoa-lhes pois Eles não sabem o que fazem.

Dia 05 de Outubro  de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sobreviver


De uma forma melancólica, quase entorpecida de lembranças que a memória teima em recordar, os dias passam-se sem um calendário definido. Alguma dificuldade em me situar no tempo, no tempo dos outros Homens. A vida tem destas coisas, destes tropeções que nos deixam bastante feridos. Um ferimento na alma, cá dentro, sem escoriações vistas do exterior, pelo menos assim penso. Como uma árvore que tem diversas raízes, assim eu me agarro às que ainda tem vida, ainda estão ligadas à terra mãe e me sustentam com o alimento que recolhem. São por certo raízes bem profundas, longe dos machados dos homens. Escondidas na terra profunda, seguram-me, não me deixam ser arrastado pelas tempestades da vida. Agarrado a elas vou-me firmando e afirmando, ora baloiçando até quase raspar no chão, outras vezes é a folhagem que sucumbe rasgada pela chuva que não é miudinha, pedras de gelo que me fustigam, relâmpagos que me assustam de morte. O clima ameno não encontra lugar para se sentar, por aqui uns tempos ficar, me cuidar, deixar cuidar-me.
 Não são tempos fáceis, granjeio o pouco que há para me alimentar, recolho-me nas vestes que há muito me fazem companhia, me aconchegam. Os passos são mais curtos, as distancias a percorrer são mais pequenas, apenas as viagens ao meu íntimo é que se alargaram, se vão demorando cada vez mais. Uma forma de estar vivo, mesmo hibernando de tantos outros mundos que ainda há pouco percorria diariamente em freimas descontroladas na pressa e no esforço de as conseguir fazer. De repente, num ápice, quase sem dar conta, deparo-me com todo o tempo do mundo que parece ser tão pouco para as viagens que desejo nunca terminar. São outras viagens, apenas me basta o olhar sereno tentando compreender, aceitar o meu fado.
Morrendo num mundo, renasço noutros bem diferentes, cheios de uma magia estranha, um pouco assombrada pelos parcos meios que começam a escassear para o corpo alimentar, já que a alma perdida anda em viagens pelo interior das raízes que se estendem até ao meu início, ao início da minha existência. Saciada de tantas vivências, tenho que a chamar, pedir-lhe que me acompanhe em mais uma demanda pelo mundo dos outros homens à procura de alimento, à procura de outros ventos que não me açoitem, apenas acariciem a face que reluz com o suor que brota de todos os poros de uma pele já muito envelhecida, também cansada.
  Tenho que lhe pedir encarecidamente que para o pé de mim venha, que não me abandone neste tempo, que de mim tenha piedade, do corpo que tenho que alimentar para que ela também comigo ainda viva mais algum tempo. Não sei se conseguirei convencê-la a aceitar a mortalidade já que ela imortal já o é. Nem que seja por breves instantes, que me acompanhe e me dê ânimo e fé para acreditar que atrás de um monte está outro, depois de uma onda sempre outras virão. O tempo não para, não quero que pare já para mim, quero ver e fazer acontecer tantas coisas. Por muito cansado que o corpo esteja, será a alma a levar meus pés a caminhar, meu rosto a sorrir e a chorar por tantos carreiros em que me quero aventurar.
Se todos os medos que me invadem eu pudesse enfrentar, ciente da minha pequenez, ciente da minha vontade de não me quedar!... Não me acobardo às tarefas ditas mais miúdas que são essenciais para me cuidar, me manter vivo e afastado de qualquer dependência. Mas quero tanto ter um tempo que aconteça durante as minhas viagens desde a raiz mais profunda até ao cume dos rebentos que todos os dias quero fazer brotar, fazer crescer em direcção ao sol, à lua que, adormecida, me faz companhia, suspensa no vazio do firmamento, que ali se mantém sempre distante, para que seja de todos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os pinheiros


Muita sabedoria popular se manifesta em pequenos provérbios. São na sua maioria pensamentos ou ensinamentos ditos por quem da vida tem grande experiência e sabedoria. Muitas vezes em pequenas frases ou versos que geralmente rimam. Gosto de os ouvir, procuro entendê-los. Uns mais simples que outros, são conhecimentos que não se devem menosprezar. Lembro um que acho muito engraçado e que me suscitou a vontade de contar uma pequena história que nada tem a ver com a mensagem que fica dele. O provérbio é mais ou menos assim: “ não se deve morrer de véspera”.
Como é fácil perceber, o autor aconselha-nos a não nos precipitar, a aguardar com paciência mesmo que a situação nos pareça não ter solução. Não sei o porquê, mas sinto que devo partilhar consigo uma pequena história que para ser fidedigna ao tempo da acção ainda não devia ser escrita ou contada. Não é um morrer de véspera, é apenas escrever o que daqui a algum tempo acho que alguém a iria escrever, com quase toda a certeza. E ela começa assim:
- “ Daqui a algum tempo, não sei precisar ao certo quanto, irá um homem pelos montes que circundam o seu lugar, com um saco às costas na ansia de o trazer para casa cheio de pinhas. Sai bem cedo, pela manhã ainda fresquinha, para não apanhar o calor. Habituado aos costumes da casa de seus pais, é como a pequena formiga que labora de verão para ter que comer no inverno. O saco de sarapilheira é bastante grande. Prevenido, não vá aparecerem muitas, resolve levar mais um para não faltar. Com um passo largo, lá irá ele todo entusiasmado, lembrando os tempos de miúdo quando fazia esta tarefa com os pais e os irmãos. Bons tempos, dirá ele para com os seus botões enquanto que se dirige  para as tapadas que em redor do lugar ficavam. Será tanta a alegria interior que o senhor não caberá em si de contente. Entrando pelos montes dentro, não para de pensar, recordar aqueles tempos em que disputavam as pinhas no intuito de encher o saco primeiro que todos. Bons tempos, continuará ele murmurando com todos os botões. Sempre olhando para o chão, espreita por entre o mato tentando encontrar alguma. Mas as pernas vão ficando cansadas, o tempo passando, e nada de pinhas. Estará confuso, que diabo é que tinha dado para as pinhas se sumirem todas. Se calhar alguém na véspera se terá antecipado. Mas porra, como poderiam ter apanhado todas? Alguma coisa não estava certa, pensava ele sem tirar os olhos do chão, ansioso por achar a primeira pinha. Exausto, desanimado, desiludido, decide descansar.   Senta-se numa pedra maior para comtemplar o Céu e pedir a Deus ajuda para compreender o que se passava. Tinha tirado o fim-de-semana para regressar à aldeia e fazer aquelas pequenas coisas que em miúdo lhe davam tanto prazer. Não conseguia compreender o que se passava.
É então que já mais calmo começa a olhar o monte com outros olhos, já distantes do sonho que trazia na mente, que o não deixava ver a realidade. Com grande espanto se levanta e olha em volta: tudo igual, todas as copas das árvores iguais, como se tivessem sido podadas pelo mesmo podador. Não se conformando foi correndo a todos os cumes dos montes em redor: tudo igual. Estaria a sonhar? Podia ser verdade?
Mas era verdade sim. Os montes que outrora conhecia vestiam-se hoje de uma vegetação tão diferente, toda alinhada como se de uma companhia de soldados se tratasse, todos em fileira, alinhados pela frente e pelos lados. Mas não eram pinheiros, não senhor. Eram eucaliptos a perder de vista. O mistério estava infelizmente resolvido. Sentiu um grande arrepio na alma. As lágrimas tomaram-lhe o rosto, escorrendo devagarinho pela face cansada e desolada. Cabisbaixo dirigiu os seus passos na direcção da casa que outrora o tinha acolhido tantas vezes com o saco cheio de boas pinhas, todas abertas, todas novinhas, depois de bem abanadas para deixar os pinhões espalhados pelo chão para germinar, outros pinheiros crescerem. Habituado em pequeno a tanta diversidade de árvores, via agora este “exército” tomar-lhe os sonhos, tomar-lhe o reino que outrora era de tantos.”
 E esta será a história do senhor que um dia irá apanhar pinhas tão distraído que não repara que os pinheiros há muito que tinham partido. Esta será a história que iria um dia contar devido ao que se passa junto a mim, em quase toda a floresta. O desbaste é geral, quase total. Um dia irei sentir a falta de árvores majestosas, daquelas que não conseguimos abraçar sozinhos. O Homem na avareza de colher tudo o mais depressa que pode, nada deixa para o futuro, para as gerações vindouras. As máquinas entram pelos montes tal carros blindados destruindo toda a vegetação que cobre o chão. Todas as árvores são cortadas para em seguida se escouçar a terra e fazer plantações de eucaliptos que é o que está a dar. Todo o mundo sabe os malefícios de tal prática mas ninguém faz nada. Metem-se dentro dos seus gabinetes e assobiam para o lado. Ninguém se quer incomodar. Eu também não me quero incomodar, tal como os pinheiros, os carvalhos, os sobreiros e tantas outras vizinhas.
Se os senhores que tomam conta dos nossos destinos ao menos gostassem de apanhar pinhas, talvez nada disto viesse a acontecer. Costuma-se dizer com ironia que o melhor é mandá-lo apanhar pinhas. Se tiver tempo acho que vou apanhar um cesto delas e oferecer a quem de direito não vá acontecer como ao senhor da história. E’ um pouco como aquele ditado que diz: “ não há pinheiro sem pinhão, pinhão sem pinha e pinha sem pinheiro”.