sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Esboço de um diário




Esboço de um diário

Hoje foi um dia enfadonho. Quase nada de novo, desde o acordar ao deitar. As tarefas miúdas vão preenchendo os movimentos durante quase todo o dia. Pouco tempo resta para me aventurar noutras conquistas. Vou protelando alguns projectos que sempre vou magicando. Eu sei que são apenas esboços mentais disto ou daquilo. Alguns acabam tornando-se realidade. Alguns, mas sempre muito poucos. O que na mente me parece valer a pena, logo que os arrasto para a realidade, acontece esfumarem-se. Quase sempre inexequíveis, por falta de vontade ou por assim o serem.  Mas nunca deixo de os imaginar, cada vez mais. O tempo hoje esteve murcho, sem a luz que eu necessito para fazer fotografia. O Outono é assim mesmo: pensativo, nostálgico, um adeus demorado ao seu irmão Verão, que para outras paragens teve que se ausentar. Prometeu para o ano voltar. Não o disse, mas eu sei que assim será. Nunca faltou à palavra, mesmo não pronunciada. Que seria de mim se as estações não regressassem sempre? Mas agora é o Outono que me vai fazendo companhia. Também eu ando um pouco nostálgico, arrastando um caminhar por entre a folhagem que vai cobrindo todo o chão. O chão que se esconde, adormece, abrigando-se do inverno frio e chuvoso que por ai não tarda. As folhas são cada vez mais, espalhadas por todo o lado. Vou poisando meus passos com cuidado, para as não magoar. São de tantas cores, quentes, como as lareiras que se aquecem com as suas fogueiras. As árvores vão-se despindo, numa nudez sem constrangimento. Adormecem, hibernam, apenas esperando acordar na próxima Primavera, que também sempre regressa. O vento vai ajudando, sacudindo todas as folhas que se vão desprendendo, numa suave queda, para não se magoarem. Sabem que um dia irão reencarnar, viver outra vez, depois de uma breve passagem dentro do útero materno, a terra mãe. Todos os elementos que se decompõem, poderão um dia regressar à vida, numa outra qualquer forma. Poderão ser alimento, energia, argamassa, tijolo, ferro ou madeira de uma nova construção, obra da vida, da eterna vida que se regenera, imortal, assim se deseja.
É bom sentir esta forma de imortalidade dos elementos que compõem a natureza. Nunca ouvi um cientista defender que, as diversas formas de flora que existem, tenham algo equivalente ao que nós chamamos de “sentimentos”. Também elas nascem, crescem, atingem a sua “maturidade sexual”, dão os seus filhos, as sementes, e um dia desfalecem, não sei se “morrem”, se imortais são. O conceito de morte para os humanos é próprio. Na “outra natureza” que nos rodeia, não consigo imaginar o que quer que seja. Sei que, quando os meus filhotes eram pequenos, quando morria algum animal de estimação, existia um “Céu” só para eles. Uma forma de se aliviar a dor da perda, uma forma por não se saber de que outra forma podia ser no seu entendimento. O acreditar, o ter fé é tão essencial nas nossas vidas, nas nossas vivências. Nunca deixaremos de ser “crianças”, acreditar que existe sempre mais alguma coisa, mesmo depois do “infinito”. 
Por hoje são apenas estas linhas que contigo confidencio. Aguardo melhores dias, para te encher das muitas novidades que existirem para contar. Apenas estas linhas escrevo, para dizer que nunca me esqueço de ti, por muito pouco que tenha para partilhar. Até breve.
                

Para descontrair





Para descontrair

No final de uma aula do 12º ano, vai a professora para o Joãozinho:
- Menino Joãozinho, porque é que o senhor não vai para a universidade?
Responde o Joãozinho sem papas na língua:
- Não vou porque os meus pais não têm notas altas!
- * -
Certa vez, ia um criado com um molho de erva à cabeça, de regresso a casa, caminhando paulatinamente na berma de um caminho. Passa um fidalgo, montado no seu imponente cavalo. Em tom sarcástico, vai dizendo que os burros andam sempre carregados, pobre vida. O pobre criado, de olhos no chão, seguia sem responder. Entretanto o cavalo começou a comer a erva tenrinha que o criado levava à cabeça. O fidalgo nada fez, achou graça, e lá ia acompanhando o caminhar do criado, cada vez mais curvado. A dada altura, o cavalo deu uma bocada mais forte no molho, fazendo com que o criado se desequilibrasse e deixasse cair o molho pela pequena ravina na borda do caminho. O fidalgo desata em altas gargalhadas. O cavalo é que não esteve pelos ajustes. Aproveitando uma distracção momentânea do seu dono, lança-se pela ravina, ao encontro do molho de erva que estava lá no fundo. O fidalgo, apanhado desprevenido, foi cuspido da montada, rebolando até ao fundo da encosta, onde estava o molho da erva. Vai então o criado para o senhor fidalgo:
- Obrigado meu senhor, assim já vou mais leve. – Dito isso, segui caminho, sem conter uma gargalhada.
Para mal dos pecados do fidalgo, quando deu o trambolhão pela encosta abaixo, foi-se aninhar mesmo em cima de um vespeiro.
- * -
Um vendedor de lenha tentava convencer a sua cliente para lhe comprar lenha para a lareira. A freguesa é que não se contentava com qualquer coisa, e vai assim para o vendedor:
- Eu compro a lenha, mas o senhor tem que me garantir que é lenha boa, que dura muito tempo!
E vai o vendedor para a freguesa, muito sabiamente, com a seguinte resposta:
- Oh patroa, se não lhe chegar o fogo, ela dura uma eternidade!
- * -



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

As interpelações do pensamento



As interpelações do pensamento

                Divagando um pouco pelo tempo, devido ao tempo que agora me sobeja, não me contenho em reflectir um pouco mais sobre as contingências que a vida pode tomar. Não sei se a vida se orienta através de um destino já traçado, se é obra nossa. Um pouco como aquele Rei que ao construir um castelo para se proteger, descorou a robustez das muralhas, tornando-se presa fácil para o inimigo. Sucede-nos tantas vezes pelo caminhar da nossa vida apenas preocupar-nos com o atingir determinadas metas, esquecendo-se por completo que após conquistada, “a fortaleza tem que ser guardada”. Pouco, ou mesmo nada, se pode dizer que está “seguro”. As nossas fragilidades são imensuráveis,” quanto maior o barco, maior a tormenta”. Ser optimista, acho que no “acontecer” de pouco vale. Apenas ajudará na forma de novamente encarar os desafios da vida, novas projectos definir, não esmorecer.  Contudo, face a determinados acontecimentos, alheios a tudo que possamos fazer, não há muralha que resista, que se mantenha de pé. Quebrando rotinas há muito enraizadas, percorremos de uma forma diferente os mesmos caminhos de ontem. Visionamos tudo de um outro prisma, somos visionadas também assim. A interacção com os outros obedece a certas regras, a certos padrões, a estatutos que, de forma involuntária, adquirimos. Relacionados pelo nosso lado profissional, por alguma particularidade na vida colectiva, pela forma como estamos em grupo, socializamos, ocupamos um lugar próprio na esfera dita social. Será relativamente fácil lidar com as contrariedades da vida, quando, mesmo alienados de determinado estatuto, temos garantido todo o nosso equilíbrio emocional e, tão importante como isso, garantidos meios de subsistência. É com grande à vontade que encaramos uma conversa com alguém que sabemos não nos tentar extorquir o que quer que seja. Seja uma divida de gratidão, um favor do passado, qualquer outra pretensão que o leva a solicitar-nos algo que não temos para dar, ou pelo menos, não estamos dispostos a dar. Dito desta forma parece um pouco cruel. Mas a interrogação então se levanta: até onde estamos dispostos a ir para ajudar alguém que precisa? Não acredito que alguém possa responder verdade. Quanto valemos, quanto nos dispomos sem querer algo em troca?
                Em tom de brincadeira, costumo dizer que as mesas deviam ser todas redondas, para que ficássemos todos à mesma distância do “centro”. Numa verdadeira roda de amigos, ela sempre se alarga quando alguém chega. Numa família de verdade, o pão é igualmente repartido entre todos, as tarefas e as responsabilidades igualmente. Mas o nosso lado “primitivo” é tantas vezes mais forte. A competição leva-nos a comportamentos inimagináveis. A ambição desmedida, o conseguir algo a todo o custo, assusta só de pensar. Quem se pode afirmar imune? Todos os seres, de todos os reinos, perante circunstancias extremas, adoptam comportamentos de sobrevivência tocando a barbaridade. A natureza concebeu-nos desta forma. Não podemos, e talvez não se deva, contornar, inibir este instinto. Talvez este instinto seja a chave da sobrevivência de tantas espécies, ao longo da já antiga história que o planeta tem. Mas este pensar é relativo, como relativas são tantas coisas. O conceito de tempo que nos é próprio, difere muito numa visão mais abrangente. Toda a dinâmica dos universos que existem, tem um tempo próprio. Regra geral, associamos o conceito tempo, ao de uma vida humana. Com base nesta medida, a que talvez possamos chamar padrão, estabelecemos toda uma série de comparações, de opiniões tidas, no nosso entender, como sábias.  
                Um pouco como a velha história do menino pastor, que procurava sempre descobrir e empoleirar-se na pedra mais alta do monte em que guardava o gado, enquanto este se entretinha, de nariz quase no chão, tentando arranjar algo que lhe enchesse o estômago. Neste desafio constante, ia pulando de monte em monte, acabando sempre por encontrar um maior do que aquele em que se encontrava. – Quando for grande, quero subir ao ponto mais alto do monte que além avisto. Lá no cimo, não haverá monte maior que aquele. - Mas nem sempre acontece o que o pastor julgava ser uma verdade absoluta. Decerto, ao chegar ao dito monte, iria avistar mais além, na linha do horizonte, outro maior. E assim sucessivamente, não fosse a terra mais ou menos redonda. Então, afinal, qual é o monte mais alto? Para se descobrir isso, não basta apenas a nossa percepção visual, é preciso chamar os senhores doutores do conhecimento, aqueles que estudam todas essas coisas. Porque ao nosso olhar, ao nosso sentir, o monte mais além, que toca o céu, na linha imaginária que é a linha do horizonte, será sempre mais alto do que aquele em que estamos empoleirados. Um pouco não se estar nunca bem, com todo o bem que se tenha. A nossa ambição, a nossa cobiça, vai sempre para o sítio onde não estamos, e que sempre desejamos. Um pouco como em miúdos quando brigávamos por querer os brinquedos dos outros miúdos. Pareciam-nos sempre melhores que os nossos. E se não conseguíssemos o que queríamos, lá vinha o amuo. E vamos sempre amuando pela vida, pequena ou comprida, que sempre achamos ter.
                Pela manhã, sempre dá para nos escondermos na própria sombra, dado o tamanho que ela toma. Na hora do meio-dia é que se complica, somos maiores que a nossa sombra, não dá para nos escondermos nela. Pela tarde, início da noite, voltamos ao princípio, a sombra já maior, dá para nos escondermos nela. Um pouco à semelhança de um entendimento que se queira fazer da vida, do tempo em que temos quem nos proteja, do outro tempo em que dependemos só de nós. Um pequeno jogo de palavras, nada mais. O seu entendimento deverá ser diverso, para que seja frutífero. Não se quedar pelo que os olhos vêem  deixar que o nosso sentir completo o quadro, o possa colorir de uma forma diferente que a mãe natureza. Não que Ela não se tenha esmerado por nos proporcionar todas as formas e cores possíveis. Mas antes uma necessidade qualquer de que seja de outra forma entendida, a realidade tocável vivida, entendida. Tocada pelos nossos sentidos, completado pelo nosso sentir, que será sempre mais um sentido que possuímos. Este mais impreciso perante a opinião alheia. Mas tão objectivo como uma outra coisa qualquer. Um arquitectar mentalmente das formas que queremos ver e depois sentir, uma pequena alucinação, sempre controlada, sempre objectiva ao nosso pensamento. Mas pouco ou nada é consensual: ao olhar de cada um, mesmo ao nosso olhar. A mente distrai-se facilmente, nos distraímos com este ou aquele pormenor, não conseguimos analisar com precisão todos os elementos que o nosso olhar capta, mas apenas vimos o que a mente quer, onde ela se concentra, relegando para o esquecimento, para a inutilidade, todos os outros elementos. Não nos conseguimos concentrar em todo o campo visual. Somos por vezes alertados por alguma modificação mais ou menos brusca na parte esquecida. De rompante, tentamos perceber, acompanhar, descobrir o sucedido. Mas por vezes é tarde demais, que o digam os condutores quando não se apercebem de uma outra viatura que os ultrapassa, de um peão que se meteu à passadeira, de alguém que entra num cruzamento, de um semáforo que muda de cor. Educar a mente, o olhar, para o essencial, o que é indispensável ver e perceber, é um exercício diário. Lembro os passeios que dou pelo meu quintal, a forma absorvedora com que ocupo a minha mente, com os meus pensamentos, o meu sonhar desvairado, desligando-me por completo do mundo meramente feito de matéria, e a necessidade que tenho em que os meus cães sejam os meus ouvidos, a minha alerta permanente, dos que possam invadir o meu reino; no “mundo da lua”, ou, se for o caso, melhor dizendo, na “lua do mundo”.
                Mas não desejamos que o dia tenha mais que uma noite. Talhados pela natureza, seja ela qual for, para encaixarmos nesse tempo já definido, já assimilado pelo corpo e pela mente. Estabelecemos rituais que se prolongam desde o nosso primeiro dia, pouco se tendo alterado desde então. Pouco pode não ser o caso, mas similar, havendo muitos resquícios imiscuídos no nosso ser. Precisamos de dormir, de preferência, quando o dia dorme também.  O nosso equilíbrio é imprescindível para desenvolvermos em pleno todas as nossas capacidades, mesmo as “desequilibradas”. Regenerar forças, alimentar com descanso a mente para que possa interiorizar e guardar a informação recolhida durante “o dia”. Ainda somos assim, por quanto tempo mais, não sei. Mas será sempre longo, pelo padrão do nosso tempo, do nosso jeito de medir o tempo. Mais rápidas são as mudanças sociais, a nossa adaptação a esta ou aquela cultura, sistema governante, todo um conjunto de obrigações e deveres, que depressa os assimilamos. Por vezes contrariados, amuados, mas de nada nos serve. As maiorias, sempre as maiorias. Ai de nós quando nelas não nos integramos, ou pelo menos, coabitamos. Revolta incessante, no corpo, na mente e na alma. No corpo que dorido fica das imposições. Na mente por não compreender tais desígnios. Na alma, por nunca a querermos perder, a querermos vender ao “diabo”. Com um corpo contrariado, uma mente desvairado, ainda vamos lá. Mas sem alma, desprovida desse algo que nunca sabemos bem definir, é que tudo perece, tudo se esvazia, ficando sem sentido, sentindo o não querer tal existência, ao pó deseja regressar.
                De onde viemos e para onde caminhamos. Por mais desvarios que a mente possa imaginar ou conceber, o corpo rezingar, a alma padecer. Saboreamos a nossa estadia nesta aventura que é sempre a vida, o viver, o querer viver, o gostar de viver, o conceber o nosso viver se tal almejarmos e, depois, o conseguirmos. Porque desejar conceber um viver próprio é um desvario da mente, como se de todo fosse possível, como se não estivéssemos fadados para num puzzle qualquer encaixarmos. Apresentarmo-nos perante a vida apenas e só como um todo, desligado de tudo, é acto petulante, de vaidade extrema, um desprezo para com toda a criação da natureza, que todas as espécies interligou, por necessidade ou desejo. Até a águia, que tão alto voa ou plana, necessita do alimento que mais abaixo, ainda no ar, ou já na terra, se movimento, descuidado, na “lua do mundo”. Sem esse alimento, poderia lá ela existir. Até as pedras bebem, quando se impregnam da humidade que as envolve. Que mais não seja, para alimentar os verdes musgos que depressa a elas se agarrarão. Somos lá senhores de andar sozinhos. Se sós  estamos, é à condição, não por vontade nossa. Mesmo sozinhos, desejamos não estar sós, move-se em nós todo um grito de revolta, contido, mas que decerto o queremos exprimir, mais que não seja, em irregular escrita, nas direitas linhas de um qualquer caderno.  Que de memórias nem só a mente se perfaz, se austera, necessitando que a água corra sempre na fonte, que dela todos os dias bebam. Porque a sede não devemos matar, apenas saciar. Ai de nós, se a sede matarmos. Como vamos saber quando precisamos de ingerir tão precioso liquido para a vida dentro de nós alimentarmos? Descuidados nas palavras, na valoração das pequenas impertinências que a natureza assim o quis, por de todo o achar coisa útil. De sábios temos tão pouco, um saber de sabichões, quando apregoamos falsos dizeres, para o mundo nos querer. Como se forjasse um labirinto infinito, no pensamento, na mente alheia, para que descobertos ou achados nunca o sejamos. De coisas simples sejamos. Se vasto conhecimento tivermos, mais uma obrigação para todos compreender, a todos nos fazermos entender.  Que nosso propósito algum seja, de muitos entendido, para muitos vivido. Mesmo de mãos no bolso, caminhando e assobiando, que ainda assim, possamos cantar.
                Que a voz que se ouve, vinda de dentro de nós, não precise de ser apenas falada para ser escutada. Que ela quebre o som do silêncio, num pequeno murmúrio enquanto se vai desfolhando uma após outra, as páginas, com frente e verso, dos passos que sozinhos não quiseram ficar, estar. Que a melodia ofegante do assobiar, caminhante, se impregne no papel onde se vão depositando camadas de palavras, sedimentando, tão desejado propósito de uma mensagem criar, tal rocha viva, algum lar deseja encontrar. Adormecidas, até serem lidas, despertem, no corpo, na mente e na alma, o propósito da sua criação. Compreendidas, entendidas do jeito de cada um, de quem as quiser para si. Entrelaçadas nos sonhos, dispersas numa demorada conversa, possam habitar, de novo ganharem vida, que com vida foram imaginadas e criadas. Que o corpo, a mente e a alma me deixem nelas acreditar, sem me magoar, sem mais nada do que com elas eu falar, assim desejo estar. Pequeno pedaço de papel, a ti me confidencio com este bocado de tinta, pequeninos desenhos vou criando, e todos juntinhos, palavras formando, que desejo agrupar, todas de bem umas com as outras, muitas histórias irão elas me contar, aquelas que quem as criou lhes contou. Ao ouvi-las, sonharei baixinho, com castelos de torres muito altas, bandeiras de todas as cores, desfraldando ao vento que será sempre ameno e macio. Um sono tranquilo se apoderará dos meus sonhos, comigo continuando a sonhar, sempre baixinho.


28 de Novembro de 2012            

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A mina dos "Moiros"




A mina dos “Moiros”

                Contadas de gerações em gerações, todas as terras guardam as suas lendas. Numa terra com uma história já muito antiga, essas lendas ganham vida nas descrições orais que se ouvem dos mais antigos. Depois, é a imaginação de cada um que a faz acontecer, tornar-se real nesse mundo imaginário que sempre guardamos. De um tempo que o tempo há muito deixou longe, a perder-se nas memórias, não se sabendo ao certo quando começou. Mas são lendas que aquecem a alma dos que em redor de uma fogueira se juntam para aquecerem o corpo. Contadas de um jeito especial por cada um, que um dia também a ouviu, vão alimentando o gosto natural pelo mistério, pelo desconhecido. E sabem tão bem, quando se prolongam noite dentro, ou num outro tempo qualquer. E se for mesmo verdade? E se ainda lá estiver a grade de oiro que os mouros esconderam no fundo de um “poço” do rio Arda ou no rio “Mau”? E se a mina ainda guardar todos os tesouros que decerto esses povos antigos possuíam? E se a “Moira encantada” nos aparecer, como será ela, que nos fará? De um arrepio na alma, passamos logo a imaginar, a desejar que tal nos suceda. Seja lá como for, não temos medo de nada, nesse imaginário que nos invade, nos toma no todo.
                A mina dos “Moiros” fica perto do rio arda, escondida na densa floresta, para que ninguém a ache. Ali se escondeu, fugindo de todos os olhares curiosos, da malvadez que pudesse acontecer de um estranho, movido pela ganância, a despojasse de todos os seus tesouros. Assim sempre tem sido, tesouro escondido, a mente imaginando, a alma alimentando. Mas neste concelho de Arouca existem várias minas dos “Moiros”. Escavadas na rocha dura, com uma entrada sempre estreita, suscita muita curiosidade o local onde foram construídas. Não existindo vestígios de campos de cultivo por perto, se não eram para obter água, com que propósito foram construídas? Conta a minha mãe que existe uma que fica perto de um caminho que costumava percorrer, entre Carvalhal Redondo e Arouca, por entre as montanhas, lá no alto de uma. No exterior existia um pequeno quadrado de terreno onde apenas cresciam fetos. Diziam que era uma eira onde os “Moiros” costumavam assoalhar o oiro. Quando criança, com os seus doze anos, lembra-se de atirarem pedras para o seu interior e de se ouvir um barulho como a “tilintar”. Corriam, a sete pés, não vá a “Moira” encantada acordar e os levar. Esse barulho era atribuído ao som que as pedras faziam ao bater no oiro lá guardado. Mesmo com tanto mistério, ninguém se aventurava muito no seu interior. O medo era maior que a curiosidade.
Ao ouvir estas histórias em miúdo, ficava a imaginar uma forma de descobrir, desvendar o mistério envolto nessa “mina encantada”, a mina dos “Moiros”. - Os seus tesouros tenho que encontrar. Enquanto não adormeço, vou imaginar a loucura que seria nela entrar. Percorrê-la no seu todo, seguir com os meus olhos o trabalho que alguém teve ao escavar a rocha dura, abrindo caminho no interior da terra mãe. Quero ir devagar, com companhia para não me assustar, um par de lanternas para que a luz ilumine os passos do meu olhar. Mas tem que ser tudo bem pensado. Vou reunir o meu grupo de amigos, o grupo de aventuras (da adolescência). Ver quem vai à frente, quem fica na entrada. O melhor é levar uma corda muito grande, amarrar-se a ela enquanto nos vamos aventurando no seu interior. Temos que combinar sinais para que se alguma coisa correr mal, os que ficaram à porta nos possam puxar. O melhor é ser de verão, logo pela manhãzinha. Os dias são mais longos, a luz é mais intensa. Bem agasalhados, com um capacete e óculos de protecção, botas resistentes, luvas nas mãos, lá iremos nós. Não vamos falar no assunto a mais ninguém. Será um segredo só nosso. Assim, se encontrarmos algum tesouro, será só nosso. Ficaremos tão ricos que poderemos fazer tudo o que nos apetecer. Já não vamos precisar de ir à escola ou trabalhar. Vai ser só brincar, outras aventuras imaginar e realizar. Iremos ser senhores de todas as minas dos “Moiros” que existirem. Valentes, destemidos, enfrentaremos com coragem todas as “Moiras encantadas” que se revelarem. Enamorados seremos da sua beleza, da sua magia, do seu encanto, tal sereia que nos encanta, nos enfeitiça. Deixaremos que nos leve de volta no tempo, ao seu tempo. Manter-nos-emos todos juntos, bem pertinho um dos outros. Assim não teremos medo, nada nos assustará, nos intimidará de prosseguir. Mas temos que nos despachar, não vá em casa sentirem pela nossa falta. Não podemos demorar todo o dia. Era o bem bonito, se há noite não aparecêssemos. O melhor é ser ao domingo. Dizemos que vamos fazer um piquenique junto ao rio Arda. Todos os preparativos têm que ser feitos durante a semana, às escondidas. Vamos guardar tudo bem escondido, não podemos alertar a curiosidade de quem quer que seja. É um segredo só nosso.
                A corda já sei como vai ser: levamos as três cordas de carro de bois que cada um tem em casa. Depois, é só amarrá-las umas às outras, e já está. As botas serão as galochas de borracha que existem em casa para regar. As luvas depois vai-se ver. Se não houver, não faz mal, assim como o capacete e os óculos de protecção. São apenas pequenos pormenores, nada que nos faça demover. É preciso pensar se o ar é respirável ou não. Vamos levar uma candeia, daquelas que ainda existem por lá, em algum sótão. Se ela se apagar, é porque não há oxigénio. Assim é muito simples, não vá “o diabo tecê-las”. Como planeamos passar lá todo o dia, levamos um pequeno farnel, qualquer coisa que se arranje lá por casa. Vamos estar tão ocupados que nem tempo vai haver para pensar em comida. Em menos de uma hora chegamos lá. Vamos pelos carreiros que é mais rápido. A descer não custa nada. O pior vai ser à noite, quando regressarmos. Mas por agora não vale a pena pensar nisso. Lá dentro vamos caminhar devagar, ver bem antes de dar o passo seguinte, não vá existir algum poço e cairmos lá. Se tiver poços, temos que arranjar paus para passar por eles. Uma mina assim deve ter muitos esconderijos lá dentro, sendo ela também já um esconderijo. Aposto que encontraremos de um lado e do outro, minas mais pequenas, filhotas da mina mãe. Mas primeiro, vamos desvendar a principal, ver onde nos leva. Deve terminar numa enorme “sala”. Um espaço enorme, cavado na rocha dura, mais alto que a mina. Em redor, um degrau acima do salão enorme, inúmeras minas mais pequenas que seriam os aposentos individuais de cada um. Ao centro, uma enorme mesa redonda, talhada de uma grande tronco de castanheiro, para durar mais. Os bancos devem ser feitos de troncos redondos, mais finos, com uma cavidade escavada neles, para serem mais confortáveis. Mas como será que iluminam os seus aposentos? Haverá alguma abertura até ao exterior? E para se aquecerem, poderão fazer fogueiras? E para onde iria o fumo? Agora tudo começa a ser mais difícil de prever, de imaginar. Para haver uma abertura, seria estranho, como é que a conseguiriam fazer até ao topo do monte? Não podemos esquecer que a mina deve ser muito comprida. E quanto mais comprida, maior a distancia até ao cimo do monte. A não ser que atravessasse o monte de um lado ao outro. Seja lá como for, depois se verá. E os tesouros, onde estarão escondidos? Numa dessas minas pequenas, debaixo do tronco enorme que fazia de mesa? E como será ele? Muitas peças trabalhadas em ouro, de todos os tamanhos? Temos que pensar bem antes de o trazer, onde o vamos guardar. Se alguém desconfia, vai ser o cabo dos trabalhos. O segredo tem que ser absoluto. Nenhum de nós pode piar. Se calhar, temos que o guardar até sermos grandes e sabermos o que fazer com ele. Vai ser uma chatice descobrir assim um tesouro e não podermos fazer nada. Para ninguém desconfiar de nada, temos que continuar a ir à escola, a trabalhar. Porra para o tesouro da “mina dos Moiros”. Bem vistas as coisas, vai ser uma dor de cabeça. E se for muito grande e pesado, como é que o vamos trazer para o lugar, onde o vamos esconder? Já sabemos andar com os bois ao carro, mas como é que vamos explicar que precisamos de levar os bois para perto do rio arda? Os nossos pais vão achar que estamos malucos, seja lá a desculpa que inventemos. Que raio, cada vez está mais complicado. E eu a pensar que o mais complicado seria entrar na mina escura e húmida. Isso até é fácil, assim como descobrir o tesouro. O pior mesmo é transportá-lo para nossas casas, guardá-lo em segredo até sermos grandes. E se alguém descobre, e nos rouba? Não podemos dizer que nos roubaram, ninguém ia acreditar. E se fossemos à guarda, ainda íamos presos por nos termos apoderado de um tesouro que não era nosso. Estamos tramados, estamos por nossa conta. Somos uns poucos, mas ainda muito franzinos. Se nos derem uma carga de porrada, fugimos logo para casa, sem saber o que fazer. Bom, isto está mesmo complicado. Pensando bem, o melhor é deixá-lo por enquanto lá escondido. Como ninguém o descobriu ou teve a coragem de o ir procurar até hoje, mais meia-dúzia de anos não faz diferença. É, o melhor mesmo é não contar nada ao grupo; pelo menos por enquanto. Ainda começavam todos a contar tudo sobre o tesouro: ia ser o cabo dos trabalhos. No outro dia estaria lá todo o lugar há procura. Ia ser o bem bonito, levarem-nos o tesouro que era “nosso”. Não, está decidido. Desta maneira é que não pode ser. Pensando bem, o melhor é eu manter o segredo. Quando já for um rapaz crescido é que irei contar a todo o grupo. Por enquanto não penso mais nisso. - E assim adormecia, pequeno sonhador.        A mina dos “moiros” continua lá, cheia de mistério, cheia de tantos “tesouros”.
25 de Novembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A partida









A partida

Da partida,
não lembro a despedida.
Da partida,
sem  mágoa, não sofrida.
Da partida,
nada sei, nada disse, nada...
Uma partida feita na ausência,
por não haver reencontro.
Tudo ficou, sem movimento,
sem haver tempo.
Ficou no passado, sentimento,
existindo, esperando em vão,
pelo regresso dos que não estão.
Se meus passos os teus reencontrassem,
se nossos passos esse tempo desvendassem.
A dor é imensa pelas palavras que não disse,
pelo carinho, que não é meu, e em mim ficou.
Apaixono-me toda a vez que lembro,
que esse sonho torno real dentro de mim.
Como se aqui estivesses, tocando teu olhar,
segredando o meu sentir, poder-te amar.

Terça-feira, dia 6 de Novembro de 2012

Acordar








Acordar

Que poderei eu dizer,
Que poderei eu fazer,
caminhando, segredando,
confidências em mim.
Que poderei eu almejar,
 meus passos caminhando,
tentando descobrir o caminho,
que te traga de volta, sonhando.
Na noite dos tempos adormeço,
sonhando, desejo de amar.
Esperando que o tempo aconteça,
que contigo eu aconteça, renasça,
acorde, continue o sonho sonhado.
Exausto meu corpo sinto, minha alma,
Todo o meu ser em pranto está,
deste meu constante acordar,
sem nunca te reencontrar.
Poderei um dia acordar,
sem de ti me lembrar?
Se nunca te poder reencontrar,
quero-te  para sempre recordar.


Quinta-feira, dia 08 de Novembro de 2012

Sofrendo






Sofrendo
Uma certa nostalgia no pensar,
um desejo de continuar a procurar.
Pela penumbra da madrugada
a sonhada boneca, minha amada.

Desejo que o desejo se afaste,
Que me deixe só, sozinho.
Não quero percorrer esse caminho
Com medo que ele me desbaste.

Quero-me preservar, sem empalhar
a vida que em mim acontece.
Quero de tantos jeitos amar
quem junto a mim adormece.

A todos os sonhos sonhados,
dormindo ou acordado estando,
suspiro da aflição que me vão causando,
de tanto os querer sem ferir meus amados.

Deste pecado que atormenta o sonhador,
vivo e alimento,  sem sequer saber se  quero,
o desejo de desejos sentir a dor,
aguardando a chegada de quem espero.

Tormento que me invade e a alma conquista,
todo o meu ser, assim estou acorrentado.
Da dor do desejo continuo, sem que desista,
sem que procure libertar-me, enamorado.


Segunda-feira, dia 05 de Novembro de 2012