sábado, 9 de novembro de 2019

Sou de mim, sou de ti, sou....
Sou de saudade, de muita tristeza ,
alguma alegria.
Sou de quem me toca,
de quem eu quero tocar.
Sou da chuva, do vento,
do sol de inverno.
Sou riacho sem fundo,
cascata desvairada.
Sou pequenez e cobardia
junto aos sonhos que sonho,
sonhando em claro dia.
Como eu desejo tanto ser
sonho encantado de mim.
Correr, sem medo da encosta íngreme,
deixar-me voar, de um jeito tranquilo,
planar como o milhafre lá em cima.
E nada mais me querer,
eu querer.
E, como que magia da natureza,
dissipar-me como neblima matinal,
nunca deixando de existir.


Agras, 09/11/2019

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A uma colega de infância

O tempo, sempre o tempo. O tempo que faz, o tempo que passou, o que se espera estar para vir. Gostamos de o medir, quantificar, assim como quase todas as outras "coisas" da vida. Ao certo nunca saberemos o que somos no tempo presente e no futuro. Sabemos mais ou menos com alguma precisão aquilo que sentimos a cada instante. Observamos-nos de dentro e tentamos também de "fora". Todo o nosso comportamento e sentir está impregnado de uma infinidade de condicionantes que, mesmo que tentássemos, não conseguimos pormenorizar, saber de onde podem ter vindo. Herança genética, "aprendizagem" no decurso da vida. Absorvemos o que absorvemos, nem todos da mesma forma, somos selectivos. E porque o somos, e o que nos leva a absorver umas coisas e outras não? O que acaba ficando no nosso baú das memórias, que quando temos oportunidade vamos vasculhar, colocar à janela para "assoalharem"? E existem determinados estados presentes que nos fazem quedar. Nesse instante apenas passa a existir um único propósito no nosso pensamento: o porquê do que aconteceu, a frustração quando descobrimos que mais nada há a fazer, que a vida terminou definitivamente, que nada mais há a acrescentar, se pode acrescentar. E lá vem as memórias para o espírito atormentar, trespassando em tudo que é sitio, derramando todo o sangue que existir dentro de nós. E não nos opomos, não resistimos ou fugimos, um ficar querendo sem sequer o ter em mente. E ficamos sombrios, carregados como o céu assim fica antes da tempestade, que não tarda, vai rebentar. Medonha, de força e determinação quão cão enraivecido. Fustiga a terra com uma infinidade de minúsculas lanças pontiagudas, e de quando em vez os relâmpagos cegam-nos na escuridão a que já nos íamos acostumando. Só nos apetece chorar, largar tudo que temos entre mãos, e soltar uma corrida tão desenfreada que de volta aio tempo real das memórias nos pudesse transportar, em corpo e alma. 
Esses instantes prolongam-se, ressuscitam de tempos a tempos, como réplicas que se vão desvanecendo, e vamos adormecendo enquanto a tempestade, também Ela, vai esmorecendo. Será mais ao longe que lançaremos um "derradeiro" olhar, mas que se irá sempre repetir enquanto as memórias não se apagarem de todo, enquanto ainda um tempo houver.      

segunda-feira, 4 de maio de 2015



Cruzeiro no lugar das Agras, entre a Capela de Santo António e a casa do Martins.


Onde vais pastorinho pastorar,
nesse teu andar, sempre a sonhar?
Porque levas o cajado na mão,
à solta o teu fiel amigo cão?
Quem o rebanho tanto receia,
será da serra ou da alcateia?
Está chuva e frio, faz uma fogueira,
peço-te, porque não ficas á lareira?
Então porque para lá vais pastorinho,
porque te leva a vida nesse caminho?
Serão as barrigas vazias do rebanho,
o alvoroço da alvorada nos currais,
o pular irrequieto do pequeno anho,
ou  a alma que te inquieta mais?
Encosta acima, carreiros apertados,
livre-nos Deus dos maus olhados.
Porque te vais  meu pastorinho?
Ai de ti, ai de mim que fico sozinho.
 



29 de Janeiro de 2015

domingo, 12 de outubro de 2014

Sossegado





Gateira - Pequeno janelo para os gatos entrarem e saírem,  dar luz e arejar os estábulos ou adegas,                      protegidas com grades em ferro (  por vezes fechadas quando o justificasse.). Foto tirada no                 lugar das Agras, freguesia de Mansores,   Concelho de  Arouca.

Sossegado


Não é fácil começar a escrever sem se ter algo pré-definido. Um tema, uma conversa inacabada, um desejo, mesmo que momentâneo, um certo desvario da mente que nos diz o que fazer, como fazer, e que achamos de todo algo importante, algo digno de se registar. Acontece muitas vezes escrevermos apenas com a mente, no pensamento, na alma que se materializa em nós e toma forma humana, podendo com ela conversarmos, desabafarmos, estabelecermos um diálogo como se duas entidades distintas em nós existissem. Mas acontece muitas vezes, mais quando a companhia humana não abunda por perto ou não nos é aprazível. Esta forma de nos refugiarmos dentro de nós  é um pouco como nos escondermos fechando apenas os olhos, tapando os ouvidos, ficando todos enroladinhos, tornarmo-nos invisíveis, sem ter que enfrentar tudo e todos. Lembro alguém que uma vez disse que quando estava doente o melhor era ficar na cama até que tudo passasse, sem ir ao médico nem à farmácia, apenas esperar que o organismo se recompusesse, cuidasse de si de uma forma autossuficiente., sem ajuda externa, sem intrusos a perturbar essa difícil tarefa de colocar de novo em ordem o funcionamento de máquina tão complexa e capaz de mirabolantes feitos, tantas vezes medonhos à sua própria compreensão. Mas aqui estou eu, junto a mim, dentro e fora, mas sempre em meu redor. Não me procuro, apenas preencho as pegadas que o tempo deixa ficar, como quando pisamos terra mole, depois da sementeira, uma marca na areia, enquanto a onda que se foi em breve voltará. E será sempre assim, pelo menos acho que sempre assim foi. Por magia de alguns fenómenos naturais, ainda hoje podemos ver algumas marcas de outras pegadas, de outros seres que foram, e se foram diluindo nos tempos, restando apenas algumas marcas que do tempo se preservaram, escondidas longe do olhar, do tocar, protegidas dessas forças diabólicas que comandam as mudanças, que sempre fizeram existir o tempo. Porque o tempo só existe por haver mudança, por criar o passado, o que já passou. E é assim, cada gesto nosso no presente logo se torna passado. Não sei o que é realmente o presente ou o futuro. Apenas sei que o passado existe porque já houve presente. E esse passado se tonará cada vez maior se o futuro continuar a existir. Um futuro que mais tarde ou mais cedo se tornará presente, que depois logo vira passado. Mas será realmente assim? O passado que passou também não faz parte do presente enquanto aqui estou, enquanto minha mente o mantiver presente na minha vida, presente em tudo que faço e penso? E o futuro não será presente, sempre presente se o penso, se o desejo, se o planeio, se o anseio ou temo? Mas em que é que eu fico? Se de todo me for impossível reler tudo que já escrevi neste texto, como posso continuar e sentir que tudo está interligado, que tem algum nexo, algum sentido? E se eu em mim impuser que não o farei, que continuarei sempre a escrever sem olhar para o início da frase, do texto? A minha memória bastará para eu me equilibrar nesta corda tão bamba, tão solta e estreita, tão lá no alto que em baixo nada avisto, nada parece existir além do medo, da angústia, de todos os males que o meu corpo e alma padecem? Que poderei eu fazer senão quebrar este pacto que a mim impus?  Chega, já chega de me martirizar. Mesmo sem olhar, saberei que poderei a qualquer altura o fazer. Como quase tudo que sonho ainda fazer. A qualquer altura, quando o desejo não poder ser domada pela racionalidade que toda a sociedade em mim depositou, me elevar para além das cordas físicas que na terra me sustém, me fixam em redor de algo que é o percurso que estou destinado a percorrer, ou não, nesta sempre breve passagem pela denominada vida humana, chegará então a altura de tudo acontecer.  E se chegada a altura já não poder acontecer porque os elementos se tornaram passado, e o passado só é passado quando já nada se pode alterar? Então que fazer, se a altura chegada não for a altura em que seja exequível todo esse futuro sonhado num presente já distante, e que hoje é passado no momento em que o futuro é presente? Que Deuses me vão acudir em hora tão infame e dolorosa, que o corpo estarrece e a alma padece, o mundo se dilui? Tintas e pincéis desmaterializaram-se por obra de grande fado, de medonho destino que se apoderou de todo o tempo, do passado e presente, mesmo do que ainda não aconteceu? E já não existirá mais tempo em mim, que os ventos que já passaram não sopram mais, já não mais existem ou voltarão a existir. E se existiram é porque alguém os lembra, alguém sentiu a sua força, o seu calor ou frio que ele transportava no seu regaço, mudanças provocou, pó arrastou, árvores balançou ou tombou, rochas deslocou, telhados desfez, os moinhos fez girar e o grão em farinha se transformou, as velas puxaram os mastros que agarrados ao casco estavam e a viagem prosseguiram. E só existiram não pelo que eram mas pelo que fizeram. Se obra não existe, como poderei saber se aqui estiveram os artesãos?


domingo, 14 de abril de 2013

Formiga amiga



    Mansores - Lugar das agras - Capela de Santo António - O pequeno sino da capela do meu lugar.
                                                                 

    Formiga amiga
- Bom dia senhora formiga,
  quer ser minha amiga?
- Não sei não, senhora gigante,
  ainda só a vi há um instante!
- Vá lá, apenas quero conversar,
  ter uma amiga para brincar!
- Mas como poderá lá ser,
  que coisas poderemos fazer?
- Brincamos ao faz-de-conta,
   mas sem eu ficar tonta!
- Não me parece boa ideia,
  tenho que trabalhar até à ceia.
- Não pode ser, só trabalhar,
  não há tempo para brincar?
- Que queres minha menina,
  tu és grande, eu pequenina.
- Mas eu sou ainda criança,
  dá-me alguma esperança!
- Eu vou por aqui andar,
  se quiseres podes observar!
- Eu quero mais, a sua atenção,
  senão ainda me dói o coração.
- Não pode ser, não poder ser,
  tenho muito que fazer!
- Não me deixe assim,
  que será de mim?
- Se queres ser minha amiga,
  deixa-me ser sempre formiga!

Domingo, dia 14 de Abril de 2013

Sem nome



                     Mansores - Lugar das Agras - Vista da capela de Santo António

Sem nome

Não me digas o teu nome.
Diz-me de ti, com verdade,
no rosto, na alma enorme,
teu jeito, gestos de liberdade. 

Não quero saber teu nome.
Só quero teu rosto guardar,
teu modo da vida alegrar,
mesmo na dor, na fome.

Se teu nome eu souber,
por certo irei esquecer.
Se me deres teu olhar,
eternamente irei guardar.


Quinta-feira, dia 11 de Abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Procurando



    Mansores, uma vista panorâmica do lugar da vila a partir do Calvário - lugar da Estrada.


Procurando

Dei-te os meus textos para ler,
Não tiveste tempo para o fazer.
Dei-te um pouco de mim,
De um jeito simples, assim.

Um tempo sem tempo para estar,
Um pouco com o amigo conversar.
Fiquei triste, o coração amargurado,
Num profundo silêncio guardado.

Invento uma mentira para não chorar,
Um querer não saber da verdade.
Serás ainda amigo, será saudade,
De um outro tempo só recordar?

Cabisbaixo, meu pequeno caminhar,
Caminhos pequenos, apenas vagueando.
Oh vento que me sussurras, neste estar
De alma vazia, por um amigo procurando.

Onde te posso encontrar, amigo?
Diz-me onde vais, que irei contigo.
Não te deixarei ir, assim tão sozinho,
Por esse carreiro, por esse caminho.


Quarta-feira, dia 20 de Março de 2013